A ADULTERAÇÃO DE QUERER "ACEITAR" E SER GUIADO - JIDDU KRISHNAMURTI


A adulteração de querer "aceitar" e ser guiado

sábado, 23 de abril de 2016




Necessitamos de um espírito crítico, não disposto a aceitar coisa alguma, nem mesmo a própria experiência. Porque, somos por demais ingênuos, queremos acreditar, queremos "aceitar" e ser guiados; e, visto que nossa própria vida é tão cheia de incertezas, de confusão, de mesquinhez, temos esperança de que um certo guru, um certo método — mesmo muito antigo — nos ajudará de alguma maneira a transcender nossos conflitos, nossas angústias e desditas. E assim, estamos muito dispostos a aceitar todo aquele — principalmente a pessoa religiosa, o discípulo, o guru — que nos oferece um certo método de meditação; mas, mas devemos duvidar dessa mesma pessoa religiosa. Um ente humano inteligente, desperto, equilibrado, não deve "aceitar" nenhuma pessoa religiosa, inclusive a minha própria. Porque tanto tememos as coisas da vida — a perda do emprego, a morte, as incertezas, o erro, a impossibilidade de alcançarmos o que chamamos Deus, aquele mistério que o homem vem procurando desvendar através dos séculos; porque nossa vida é tão insignificante, tão sem valor e superficial, e nosso espírito também tão superficial, vulgar, infantil, preferimos "aceitar" aquele que diz: "Eu sei, você não sabe; portanto, siga-me!" — Não fazemos uso de nossa razão, nosso senso-comum; por isso, permanecemos insignificantes, superficiais. 

Mas, se você começar a questionar, a duvidar, a exigir, a ser "impiedoso" com você mesmo e com todo aquele que lhe oferece um método — está então no verdadeiro "estado de investigação". A menos que você investiga profundamente, em seu interior,não tem a possibilidade de descobrir o que é verdadeiro. Ninguém pode levá-lo a esse descobrimento — ninguém! — e, por consequência, nenhum sistema. A verdade não é uma coisa estática, que fica à sua espera, enquanto você segue um sistema uniforme, enquanto pratica diariamente um certo método, enquanto aprimora a sua mente e o seu coração para alcançar aquele estado que você chama "a verdade". A Verdade não espera por você.

Por conseguinte, cumpre perceber que todo método — não importa por quem tenha sido estabelecido — Buda, Sankara, quem quer que seja — só pode amesquinharmais ainda a mente. Porque, praticando, diariamente, um certo sistema a mente se torna mecânica. Quando a mente pratica seguidamente uma certa coisa, assemelha-se àqueles que praticam mantras todos os dias, repetindo, interminavelmente, palavras, palavras, palavras sem muita significação. O mantra, a meditação que praticam, nada tem em comum com o seu viver. São indivíduos embusteiros, ambiciosos, ávidos, cheios de rancor e de inveja; nunca deixam de "se recolher a seu canto", em casa, para meditar — mas continuam com a mesma hipocrisia de todos os dias. 

Assim, sua mente que já é mesquinha, que já é superficial, que já mistifica a si própria e ao próximo; sua mente por mais que pratique um método e por meio dele espere alcançar seus pequeninos deuses, nunca descobrirá o que é verdadeiro. Por conseguinte, permanecem eles, dia após dia, na angústia, no sofrimento, num estado de total confusão. Portanto, é necessário que cada um perceba com toda a clareza, por si próprio, a total futilidade do hábito mecânico, do seguir um método. 

Veja, por favor, estamos aqui investigando juntos. Você não está aceitando as minhas palavras. Não está substituindo o seu guru por este orador; isso seria verdadeiramente desastroso. Mas, estamos aqui em comunhão, com o fim de descobrirmos a Verdade, de descobrirmos por nós mesmos o estado de espírito próprio da meditação — descobrir esse estado de espírito e não como  meditar. 

Como dissemos, o método, por mais bem fundado e consolidado pela tradição, não pode conduzir o homem a outra coisa senão a um resultado mecânico. Você pode ver e praticar uma certa coisa diariamente; mas, isso não libertará a sua mente das penas e da solidão e da agonia da vida. Temos de compreender isso, e não um certo deus estúpido inventado pelo homem. Todos os deuses são invenções do homem; porque a Verdade não pode ser descrita; o desconhecido não pode ser formulado em palavras; ao que "não tem nome" não se pode dar nome; a mente tem de alcançá-lo impremeditadamente, — inocente, fresca, não-contaminada. 

Assim sendo, o método, a infinita repetição de palavras, não levam ninguém à Verdade. Tampouco as orações, que são meras súplicas. Você ora porque deseja felicidade, prazer, porque deseja algo. Deseja a paz na terra, e por ela reza. Você não pode ter paz na terra, rezando. Só haverá paz na terra se você for pacífico. Deus não vai lhe dar paz; você tem de ser pacífico, quer dizer, sem rivalidades, nem ódio, nem violências, nem divisões de nacionalidades; sem ser muçulmano, ou hinduísta, ou discípulo, ou chinês, russo ou americano. Você tem de ser pacífico; e, então, você terá paz na Terra. 

Quando em seu coração, em seu espírito, você é pacífico, então não reza, nem precisa de ajuda alguma. Assim, as orações das igrejas, dos guias, e dos santos, que estão simplesmente explorando o povo, nada significam, não têm nenhum valor. A oração poderá produzir um certo resultado — um resultado mecânico. Há pessoas que rezam, não para terem Deus, para terem paz, mas para terem as coisas que desejam. Desejam geladeiras, casas, propriedades, desejam dinheiro, desejam passar em seus exames. E qual a diferença entre essas pessoas e aquelas que rezam para terem o céu, a paz? Não há diferença. 

Precisamos, pois, compreender o significado da oração. O homem que reza para ter uma geladeira, a obtém, porque concentrou o espírito e todas as suas energias nesse desejo de uma coisa fora dele próprio. Mas, a paz não está fora  de você. Você tem de criá-la, de torná-la existente; deve deixar de ter nacionalidade.[...] Se você deseja a paz, deve deixar de ser discípulo, muçulmano, membro de um grupo étnico-religioso; tem de trabalhar pela paz. E a oração é uma fuga a isso. 

Assim sendo, os métodos — a repetição de palavras, de orações — não conduzem o homem à Verdade, visto que são processos egocêntricos a serviço de interesses egoístas. E a mente vulgar que reza, que pede, que solicita, que repete palavras, em nenhuma circunstância pode descobrir o que se acha além das palavras. Você e eu estamos falando a este respeito; estamos rejeitando tudo aquilo, não verbal ou intelectualmente, porém realmente, porque se trata da verdade — não porque o orador o diga, mas porque o é de fato. E quando se percebe claramente uma coisa como fato, a colocamos de lado, porque já não tem significação alguma. 

As várias posturas que uma pessoa assume na chamada meditação, o respirar corretamente, o se sentar corretamente, e demais exterioridades superficiais, têm um certo efeito de aquietar o corpo. Naturalmente, se uma pessoa se coloca a respirar regularmente, tranquilamente, o organismo físico se torna quieto; mas sua mente continua superficial. Não se pode tornar a mente ampla, profunda, sã, vigorosa, lúcida, por meio da respiração. Você pode fazer isso durante mil anos, e continuará com a mesma mente vulgar. Isso, portanto, também precisa ser colocado de lado. 

E há, também, as novas drogas que se estão experimentando na América e na França: Mescalina, LSD, etc. Muitas pessoas as tomam para terem uma experiência extraordinária do real; pensam que, tomando uma pílula, se transportarão ao nirvana. O efeito dessas drogas (nós não as experimentamos!) é este: tornam, temporariamente, o sistema nervoso supersensível, seperaguçado. A mente se torna muito alertada, muito sensível, penetrante, lúcida; vê as coisas muito mais intensamente; a flor se torna então muito mais bela. Mas os efeitos dependem da pessoa que toma a droga; se já tem ligeiras disposições artísticas, ou filosóficas, ou supersticioso-religiosas, terá a adequada experiência; e esta, naturalmente, lhe dá uma extraordinário sentimento de ter apreendido algo de misterioso. Como você sabe, se um homem toma uma bebida alcoólica, esta o ajuda a vencer suas inibições e ele se sente, naquele momento, extraordinariamente livre, fala com desembaraço e sutileza. Mas, nem o bebedor, nem o homem que toma drogas de qualquer espécie, está mais perto do Real. Talvez o "pecador", o homem que não toma drogas, não segue gurus nem se senta numa certa postura, pensando, meditando, mesmerizando-se — talvez esse homem, que você chama "pecador", esteja muito "mais perto", porque não finge ser o que não é, e sabe o que é. 

Vemos, pois, que nenhum desses sistemas — orações, repetição de palavras, imagens, respiração, drogas, gurus — que nada disso dará resultados, porquanto a mente continua superficial. Portanto, esta é a primeira coisa que se precisa compreender: que a mente vulgar, a mente superficial, a mente confusa, o que quer que faça a fim de fugir de si própria, nunca encontrará "o que não tem nome". Compreendido isso, o indivíduo retorna a si próprio. 

[...] Você e eu vamos nos encarar de frente, nos olhar, impiedosamente; e, como resultado dessa observação de nós mesmos, a qual requer uma certa vigilância — de que trataremos mais tarde — estaremos aptos a descobrir o que realmente somos, o fato, o que é, e não o que deveria ser, que é pura imaginação. E daí, então, poderemos prosseguir.[...] Para compreender, você não deve estar confundido por sistemas, métodos, orações, crenças, etc. Tudo isso têm de ser posto de lado; isso será muito difícil para a maioria das pessoas, que querem acreditar. A mente que acredita é a mais vulgar e a mais estúpida. Você pode acreditar, mas só "experimentará" aquilo que acredita, naturalmente. 

Jiddu Krishnamurti em, Uma Nova Maneira de Agir 

Fonte:http://adultosadulteradosadulterantes.blogspot.com.br/2016/04/a-adulteracao-de-querer-aceitar-e-ser.html

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